O comerciante José Correa, 72, diante de sua loja no centro de São Paulo; ‘O que importa é dinheiro no caixa’, afirma

Essa loja é de brasileiro”, diz a faixa em cima do letreiro da Calde Bijuterias. Ali, no calçadão da rua Sete de Abril, no centro paulistano, todos os itens custam R$ 2,99.

Precisava fazer uma propaganda diferente para o Natal. Como tudo está muito batido, apelei para a cooperação do brasileiro, pedir para ajudar outro brasileiro”, diz o dono do lugar, José Correa, 72. Ainda que não fale em valores, o empresário diz que a propaganda surtiu efeito: em dezembro de 2017, com a faixa, teve o dobro de vendas de dezembro de 2016, sem faixa.

Segundo o Censo 2010, o bairro da República tem 43% de imigrantes entre seus moradores. Junto com outras regiões do centro histórico, como Sé, Bom Retiro, Pari e Brás, é a que mais concentra moradores vindos de outros Estados ou países, junto com Jardim Anhanguera, bairro na periferia noroeste da cidade.

Às vezes dá a impressão que o cara está perseguindo alguém”, diz Correa. “Mas não, sou só brasileiro e estou cuidando dos meus negócios. Amo o país, e quem ama também me prestigia, vai comprar de mim.”

Ele nega que chamar atenção para sua nacionalidade tenha sido explicitar o estrangeirismo de quem está ao redor. “Ninguém compete com ninguém. Sou brasileiro, genuíno brasileiro, daqueles que já morou no Brasil inteiro.” Correa saiu da zona rural de Cedro, no Ceará, para São Paulo no Carnaval de 1978. Vendeu pente na rua até conseguir montar seu primeiro ponto. Lê e escreve o necessário para fazer negócios. “Eu não consigo fazer um currículo porque não tenho grau nenhum de escolaridade.”

A clientela analisa de maneiras diversas. “Eu entrei por causa do preço”, diz a faxineira Neide Sousa, 47, no corredor da Calde, onde só passa uma pessoa por vez. Acabou levando uma tiara. “Eu ia comprar ‘piranha’ de cabelo em qualquer lugar, daí vi a faixa e pensei: ‘Por que não aqui?'”, diz a estudante de administração Catarina Sá e Lima, 23. “Brasileiro se ferra tanto, afinal, por que não ajudar quando pode?”

A desempregada Lia Dias, 32, concorda: “Vim comprar presente de Natal atrasado. Se as pessoas gastassem com brasileiros, teria menos gente desempregada. Quem sabe eu não seria uma delas?”

Tem até quem queira imitá-lo. A dona da loja de roupas esportivas Move, a dois quarteirões, afirma que pensa em ação parecida. “Foi um ano muito difícil para todos. É hora de a gente se unir”, diz Elisa Silva, da Move.

VISIBILIDADE

Para a antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, a faixa pode conter uma ideia muito maior do que a frase de cinco palavras.

“A pluralidade é a marca da cidade, especialmente do centro. Mas ela nunca esteve tão em risco”, diz. Para ela, a tensão entre imigrantes recentes e o comércio da região acontece quando se instaura uma competição pelo mercado.

“Identificar-se como brasileiro, principalmente nessa onda nacionalista que estamos vivendo, é um mecanismo de visibilidade. É criar uma identificação no meio dessa pluralidade crescente, que pode causar confusão. Essa faixa conseguiu dar visibilidade a uma questão que geralmente não é tão explícita.”

Para o empresário, a faixa não passa de uma propaganda. “O que importa é dinheiro no caixa.” Se as vendas forem boas, José deve viajar à China ou à Coreia do Sul para escolher os produtos que venderá no comércio, que ornamentou com uma faixa es

crita: “Essa loja é de brasileiro”. “A faixa vai ficando”, diz.

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